terça-feira, 11 de março de 2014

Arquivo Samara




Passei minha infância em João Pessoa, na Paraíba, onde nasci. Ô lugar bom de se viver! Tenho as mais lindas lembranças dessa terra, há poucos meses me mudei para Recife, onde escrevo esse depoimento. Você pode até pensar que cidades pequenininhas como a minha estão livres de vários males das cidades grandes, como as drogas. Mas não estão.
Mas voltando no tempo...Eu e minhas duas irmãs (Nattascha, a mais velha, Samara e eu, a caçula), sempre tivemos tudo do bom e do melhor. Estudamos em escolas bacanas, moramos em bairros nobres, e crescemos cercadas de carinho. Sério mesmo. Vida suave e feliz.
Fecho os olhos e me lembro da gente correndo pela área de lazer do prédio, brincando na praia, virando a madrugada no videogame...juntas, sempre juntas! As três melhores amigas (Samara e Nattascha mais um pouco, vai...).
Samara sempre foi a mais inteligente.Além disso, linda e magnética. Sabe como? Deixava todos os garotos apaixonados, e as meninas querendo imita-la, como eu!Também tirava as melhores notas. Sabia de tudo.Nós duas passávamos hooooras na locadora decidindo qual filme alugar.Como eu queria que apenas momentos como esse estivessem guardados na minha memória...mas não.
Eu tinha 12 anos quando o pesadelo da nossa família realmente começou.Estava dormindo e acordei com um barulho bem alto.Alguém levou um belo tombo no andar de cima, pensei comigo.Minhas lembranças se misturam, acho que de alguma forma minha mente me quer longe daquele dia. Procurei meu pai, Nattascha, e lembro de um barulho alto de sirene vindo da rua.Levantei correndo, segurei o cachorro, e dei de cara com meu pai desesperado, entendendo que a ambulância tinha vindo buscar Samara. Não desci, não fui ver. Mas minha irmã, Samara, de 14 anos, havia se jogado da varanda do 4 andar do apartamento de um amigo que morava no mesmo prédio que a gente. Você consegue imaginar o tamanho do nosso choque? Ficamos tentando entender o que tinha acontecido! Jesus, como ela tinha caído? Tinha escorregado? Alguém tinha feito algo contra ela? Que angústia!Já no hospital foi a própria Samara quem nos contou que estava “tão louca” que achou que podia voar.
Foi assim, da pior maneira possível que meus pais confirmaram que ela usava drogas. Como muitos jovens, era um baseado aqui, uma bala ali, um doce acolá. Não é assim? Para ser aceito, para aproveitar melhor a festa, para curtir? Ah, também teve a cocaína, que viciou.
E então ela sumiu.
Nem mesmo o acidente, que a deixou sem andar por três longos meses, e que foi um período de fortalecimento de fé e comunhão com Deus para todos nós da família – tivemos ajuda de pessoas da nossa Igreja e de outras Igrejas e religiões –fez com que ela parasse usar drogas. Assim que teve oportunidade, ela voltou ao convívio dos amigos, e ao consumo . E aí, coisas de valor começaram a desaparecer. Dinheiro, jóias, eletrodomésticos.Até o carro da família. Em casa era uma tristeza só, clima de enterro. O agravamento do problema deixou todo mundo em choque. Eu tinha vergonha de conversar com ela, de encarar. Meus pais não sabiam o que fazer. Tentaram castigar, conversar, prender, orientar...convencê-la a se internar.Sóq eu ela estava sem freios, afundando cada vez mais rápido.Então ela sumiu, saiu e não voltou mais. Procuramos amigos, polícia, familiares.Cada vez que o telefone tocava, era um desespero. Meu pai ficava atento aos programas policiais, a procura da manchete, em busca de notícias da sua filhinha. Dias de angústia. Minha mãe nunca perdeu a fé. Sempre em orações, sempre acreditando que ela iria voltar.
Um belo dia, acredito que um ano depois do sumiço, uma mulher bateu a nossa porta.Magra, desgrenhada, pele afundada na cara. Cansada. Um misto de raiva e desespero tomou conta de mim quando vi que era Samara. Choramos, brigamos, e depois nos entendemos.Ela prometeu mais uma vez que ia mudar, que queria mudar. Eu acreditava, por que sabia que meu Deus é o Deus do impossível. Ela aceitou se reabilitar. Com a ajuda de outros cristãos conseguimos um lugar para ela. Eram poucos os lugares que recebiam mulheres. No dia combinado, ela desapareceu. Depois voltou para casa. A qualquer sinal de melhora lá estava ela novamente, entregue ao mundo das drogas. Era um pesadelo. Idas e voltas, melhoras e pioras, promessas e quebras. Ela voltava, dizia que queria virar o jogo, era internada, melhorava e fugia, sem conseguir viver longe das drogas.Tentei ser amiga dela, entender, não julgar...mas talvez não seja evoluída a esse ponto. Ver meus pais e minha família destruídos por causa dela, me doía demais.

Procurando manchetes trágicas nos jornais

Quando eu estava com 20 anos, já perto de me formar em Rádio e Tv, Samara voltou ao nosso convívio.Chegou do nada, para a nossa surpresa. Estava namorando um razpaz, apaixonada, morando com ele.Na época, minha irmã Nattascha já estava de casamento marcado, só que Samara acabou engravidando, e casou um dia antes dela. Foram festas lindas! Abençoadas  e que encheram nossos corações de esperanças. Um bebezinho lindo nasceu no Natal: Maximus, o amor da minha vida. Por cerca de 3 anos, tudo estava incrivelmente bem, até que ela e o marido conheceram o crack.
Sinceramente? Não lembro bem como eram meus dias nessa época. Eu acordava e dormia tentando viver uma vida normal e esconder essa terrível realidade das pessoas que me cercavam. Uma das vezes que fui visita-la fiquei em choque com a casa que moravam. Não havia um móvel sequer. Nada. Maximus estava sozinho sentado no terraço. A essas alturas, meus pais já lutavam pela guarda dele, e ele foi morar com a gente. Um menino tão lindo, mas com um olhar tão triste. Samara sumiu novamente, e a nossa vida voltou ao padrão de “procurar manchetes nos jornais”. Não contei, mas sempre tivemos uma ligação especial. As vezes ela me ligava só para conversar, outras vezes ela ia nos ver e me roubava. Recebi ínumeras ligações a cobrar me pedindo dinheiro para pagar dívidas de drogas. As vezes eu dava, as vezes não. Nunca contei a ninguém, nem aos meus pais o que acontecia. Sentia pena deles, não queria vê-los sofrer ainda mais. Lidei com isso, e tentei sempre _sempre_ ser motivo de alegria e admiração para eles.
Uma vez ela me disse que se prostituía para pagar as dívidas, para comprar drogas. Eu já imaginava, mas como aceitar aquilo vivendo a vida que eu tentava viver? De amigos incríveis, de festas...algumas amigas diziam que eu tinha “vida de seriado”, e sabe o samba “ninguém sabe a mágoa que trago no peito”. Pois é. Então eu pirei. Meio que entrei num buraco junto com ela. Sentia muita vergonha de tentar ser feliz. Chorava em todos os cultos que ia na Igreja Cidade Viva. Chorava quando ninguém estava vendo também. Chorava olhando pela janela do ônibus, chorava quando alguma amiga minha estava usando drogas. Chorava pela situação financeira dos meus pais, chorava pela depressão do meu pai, chorava e chorava. Não conseguia mais curtir as festas, não conseguia mais comemorar de verdade as metas profissionais alcançadas _profissionalmente eu estava crescendo cada vez mais_. Nada me deixava feliz o suficiente, por que eu não era feliz. A dor de não fazer nada me sufocava. A dor de não ter a força e a fé da minha mãe, o carinho do meu pai e da minha irmã Nattascha me enlouqueciam. Eu fingia estar bem, mas meu coração e minha alma nunca acreditaram nisso.
Meu pai só me contou depois, mas durante esse período chegou a levar dinheiro a um traficante, que a acorrentou ao pé da cama até que a dívida fosse paga. Ele me disse que foi várias vezes a cracolândia busca_la, procura-la. E acreditam que eu tinha raiva dele? Achava que ele a protegia demais, e esquecia de mim, que tentava ser tão perfeita. Como somos injustos e imaturos não é?

O crack detonou seu corpo
E quando a gente pensava que nada poderia piorar,descobrimos que Samara estava grávida novamente. Ela simplesmente apareceu em casa no final da gestação. Tirando a barriga, ela era só pele e osso!O crack detonou seu corpo, e ela havia se drogado durante toda a gravidez. Em uma dessas bênçãos de Deus para as nossas vidas, em mais um milagre inexplicável, o bebê nasceu saudável. Ela o batizou de Hércules. Quando ele ainda era recém nascido Samara fugiu com ele, e foi presa na cracolândia. Minha tia, irmã da minha mãe, se ofereceu para cuidar de Hércules. Mais um presente de Deus. Não tínhamos estrutura financeira e nem emocional para tanto.
Eu nunca fui no presídio.Ela ficou por lá uns 20 dias, e me telefonava toda noite, de números diferentes, pedindo crédito de celular. Gritava muito, dizia que ia ser morta. Algumas presas também me telefonavam, ameaçando a nossa família. Paralelamente a essa situação meus pais lutavam e conseguiram um defensor público para solta-la. Então tive um estalo: Vou tratar de viver minha vida. Vou é ser feliz.Poxa vida. Me afastei dela, doa problemas dela, da vida dela. Conheci Tito, e foi amor a primeira vista. Começamos a namorar e casamos ano passado. Ele é o homem mais carinhoso e companheiro do mundo. Infelizmente _ e hoje sofro e me arrependo_ nunca conheceu Samara.
Uma vez solta, conseguimos interna-la numa ala para dependentes químicos de um hospital psiquiátrico. Horrível. Dopavam ela. Nos fins de semana, ela ficava conosco, dopada, e sequer conseguia falar. Mais uma vez não conseguia acreditar que aquela era Samara. Passei a não reconhece-la mais. Recebemos mais ajuda de outros irmãos em Cristo. Até de pessoas que já estavam em nosso convívio, mas com quem absolutamente não nos abríamos. Essas pessoas e a nossa fé em Deus foram fundamentais nesse processo. Conseguimos interna-la em uma clínica cristã (católica) que tinha espaço para mulheres. Nunca fui visita_la. A mágoa do meu coração era tão grande, que minha fé estava sumindo, até me afastei da Igreja.Tinha medo de me decepcionar mais uma vez, e sabia que ela não ia melhorar.

Então achamos a manchete que tanto procurávamos
31 de dezembro. Eu, Tito, Maximus, Nattascha e seu filhinho Nabal tínhamos passado um dia perfeito na praia.Voltamos cheios de planos para o ano novo. Voltamos e liguei o computador. Como jornalista, mesmo de folga, eu queria me manter informada. Então li a manchete que sempre temi encontrar : “Mulher é encontrada morta a pedradas no bairro São José.”.Reconheci minha calça jeans na foto. Liguei para o legista (por ser da imprensa tinha esses contatos) e pedi para ele procurar uma tatuagem no corpo. Ele achou. Era ela.Minha irmã estava morta, morta a pedradas. Que triste fim para uma história tão triste.Não fui ao GEMOL, nem ao velório e nem ao enterro.Não queria vê-la desfigurada aos 28 anos de idade. Não queria falar com ninguém. Tive pesadelos horríveis. Queria apagar aquilo.
Até hoje a polícia não encontrou os culpados pela morte dela. Mais de um ano depois e que nos procuraram para interrogar. Não vão encontrar.
As vezes meu coração se enche de uma tristeza indescritível, do tamanho do mundo.Autopiedade, pena dela, pena dos meus pais, dos filhos que ela deixou. Meu único conforto é pensar que a minha história contada aqui pode ajudar pessoas a procurarem um caminho longe das drogas.
De tudo isso, restaram alguns tesouros! Meu marido Tito conheceu a Cristo e renovou sua fé em Deus! Voltei a comunhão na Igreja e consegui também aproximar outras pessoas de Deus, assim como ajuda-las nas suas dores e também pedir ajuda quando necessário.
Outros tesouros tem nome: são dois pequenos e lindos milagres com nomes de hérois: Máximus hoje com 9 anos  e Hércules, com 5.Consigo enxergar muito dela neles! Falo em Samara com muito amor para os meninos. Sempre que posso, conto da nossa infância, daquela menina linda que corria comigo na praia, que arrumava meu cabelo, que roubava meus paqueras, que tirava notas melhores que as minhas, e que tinha a risada mais gostosa que já ouvi.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sucesso de público

Esgota bilheterias, acaba nas bancas, prolonga edições, provoca repeteco de espectadores. Assim é minha amiga Diana Reis, que todo mundo ama.

Quem não adoraria assisti-la mais de um vez e decorar seus textos, como o famoso “Mentira” ?

E ler essa menina? É tão bom tentar decifrar suas inquietudes, dar aquela olhadinha no rodapé e entender a referência.

As vezes ela até parece uma música, daquelas que vc quer ouvir tanto, a ponto de gravar no MP3, no computador e até usar como toque de celular.Recorde no 4shared!

Di também tem um quê daquelas crônicas amadíssimas que rodam o mundo pelo facebook. Afinal...como não querer cita-la? Com seus conselhos espertos e suas observações pertinentes?

Diana é quase como aquela poesia que todo mundo coloca entre aspas embaixo de uma frase bonita de instagram! Ah, quem não quer usa-la como frase de efeito se essa menina é pura poesia, até no nome: Um pouco de Rainha e muito de dia!

Para minha amada amiga, sucesso de público, um grande beijo e um muito obrigada!

Gosto mesmo é de ter crise

Gosto mesmo é de ter crise.
De riso!
Me dobro
Até que a gargalhada envolva toda parte
E falte ar 
E sobre felicidade

Gosto mesmo é de ter crise.
De riso!
Seguro a barriga
E prendo  em mim a delícia 
Da risada cantada
Do olho marejado
Da graça, de graça!

sábado, 29 de junho de 2013

Crente


Sinto muito por você que não tem fé. Sinto realmente muito por você que não acredita em Deus. E vou usar uma frase que escuto muito com sarcasmo, mas vou escrever pq acredito: Sim, eu vou orar por você. Isso não é uma indireta de Facebook, eu só queria dizer que sinto muito por que você não sente o que eu sinto. Você não experimentou a vontade de melhorar que eu vivo, e nem o conforto no sofrimento. E não venha me julgar pq eu não tenho um comportamento exemplar, você também não tem. É isso aí, você não tem. E o fato de acreditar em Deus não me torna perfeita, só me ajuda a tentar ser melhor.E você pode alegar que existem muitas coisas para nos tornar pessoas melhores e eu te digo: não vim falar da sua verdade, e sim da minha. Então, já que vc tem tantas opiniões sobre evangélicos, eu vou te dar a minha, privilegiada, de dentro do contexto: Em minha opinião, não é uma atitude cristã o projeto #curagay. E Feliciano não me representa. Eu acho ele um perfeito idiota, na verdade. E sim, eu sou evangélica, cresci na Igreja Batista, e ainda estou por lá, a cada domingo. E pq achar que o cristianismo nos torna burros? Nos torna massa de manobra?  Pq achar que tudo o que um líder religioso que fala em nome de uma “igreja” é o espelho de quem eu sou? Não é! E ah, você também pode dizer que eu sou exceção, mas não sou. Vou te contar umas coisas. Existem crentes que podem estudar. Tadáááá. Eles também podem ser politizados, entender da vida e quem sabe (tadáááa novamente) ter opinião própria. Nós podemos escutar boa música e apreciá-las. Podemos até gostar de pagode (você pode achar horrível como pessoa, mas quando se é crente tudo é possível) E só mais uma coisa: na Igreja, como em qualquer lugar, existem pessoas boas e ruins. Pessoas que querem roubar seu dinheiro, e pessoas que usam seu dinheiro para salvar outras pessoas. Inteligentes e burras, gordinhas e magrinhas. Então, te peço como cidadã. Pare de me julgar por ser feliz. E também não me condene por estar aqui “defendendo” a minha religião e meu Deus. Você simplesmente tem que me respeitar por dizer que penso depois de tudo que eu escuto da sua boca. Eu estou seguindo seu exemplo. F a l a n d o.Escondendo-me em um link, escrevendo numa página branca, soltando minhas palavras por aí. Também sei citar autores, mas o autor do livro que acredito não se encaixa nas normas da ABNT. De acordo com as palavras de Deus, eu tenho livre arbítrio, e podendo escolher, resolvi segui-lo.     

Mariah Araújo
Radialista, Jornalista e mestranda em produção jornalística pela UFPB - Assessora de imprensa e evangélica


(meu blog é de poesias e pensamentos. Bom, isso é um pensamento.)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Contaram



Minha vida se torna uma conta de coisas...
Ou uma coisa de conto!
E quem determinou número para minha história?
Sim, isso conta muito! Por que eu, bem, eu contei com um desfecho diferente
Me narraram outro, mas me contive e percebi que no meio de tanta carochinha,
Difícil mesmo é fazer uma coisa sem fazer outra.
E, mais difícil ainda é fazer uma, outra e não poder (ainda) fazer a terceira.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Deus proverá.



Acordei com uma angústia peculiar em meu peito. Eu já tinha sentido ela antes em outros episódios dignos de desejar perder a memória. Esse era mais um desses capitulos. Meu pai acordou de sobressalto, e eu só desejava que o tempo corresse rápido, mas ele insistia em se arrastar, como uma carroça em plena avenida principal da cidade. Tudo meio que girava em câmera lenta, e eu entendia o que se passava e fingia que não entendia nada, para ter a chance de escolher não participar. Eu estava me abstendo daquilo, até ouvir aquele som. Alguém caiu, pensei. Sei que demorou, mas na minha cabeça a sirene já fazia o maior barulho. As pessoas cochichavam ao passar pela porta, e eu não lembro onde estava a outra de 15. Não lembro. Já tentei, e ela sumiu dessa cena. Estavam sempre mencionando um andar: foi do terceiro ou quarto.
        Não sei onde todas as memórias foram parar. Acho que já desejei demais que tivesse amnésia como nos filmes. Posso até bater a cabeca para que isso aconteça.
        Os meses se arrastaram entre as idas ao hospital e a recuperação em casa. Nos mudamos. Nos afastamos da tragédia, dos vizinhos que cochichavam, do menino de apelido tenebroso, nos afastamos das pessoas, mas começamos a ter um relacionamento melhor com Deus e a nossa fé.
        Tivemos a ajuda de muita gente, que eu não sei bem quem, por que simplesmente não perguntava. E praticamente ninguém estava interessado em me contar. Estávamos na praia, numa espécie de veraneio forcado. Eu caminhava sempre sozinha. Noutro dia cheguei a varanda da casa e vi meu pai chorando. Era um choro contido, doeu até em mim. Uma raiva foi germinando ali, bem perto do lugar das dúvidas e de certos desprezos. Entrei e foi a vez de vê-la. Ela lia um livro deitava de barriga pra cima, imóvel por recomendações médicas. Cuidávamos dela como se fosse um bebê, torcendo para que ela voltasse a ter toda aquela vitalidade, exceto a vitalidade emprestada que a deixavam com vontade de voar. Olhei para ela e uma mistura de decepção e medo tomou conta de mim. Eu não queria estar ali naquela praia sem graça e muito menos ver meu pai esconder aquelas gotinhas salgadas que caiam longe dos meus beijos. Corri para minha mãe, que estava com o maior sorrisão. Disse que tinha fome, e que queria a melhor das sobremesas. Ela falou que não tinha, e disse uma das que é a sua melhor frase: “Deus proverá”.

Você acha que não



Sim, você já pensou nisso.
Depois dos limites.
Foi e voltou.
Fez.
Já refletiu, já voltou atrás.
Gritou, se arrependeu.
Fez de novo e mais uma vez.
Sua vontade te traiu e você traiu a sua vontade.
Já foi honesto, e já se enganou.
Chutou o balde e sentiu o pontapé.
Não quis só seguir instruções.
Mas não soube dá-las.
Revezamento de medo e coragem.
De libra e leão.
Olhou ao redor e perdeu a paciência.
E dentro perdeu o sono.

Você acha que não,
Mas sim,você é capaz.

29 de novembro, há 10 anos, decidi ser produtora.


O repórter estava suado, mas estava totalmente seguro do que fazia e que a câmera era sua melhor amiga.O microfone também fazia parte daquela turminha tão unida. Eu estava ali, na duvida se era aquilo mesmo que eu queria. O cadáver era de uma mulher. Magra, com as marcas do rosto afundadas na carne. Nem sei como olhei. Mas olhei. Respirei fundo. Tenente Nunes dizia ao repórter que eu tanto admirava que aquela foi dominada pelo crack. E que o crime era acerto de contas. Hoje sei que a polícia adora falar em acertos de contas, e que perícia não tem nada de CSI, ou qualquer série americana que tanto gosto.
Não conseguia parar de pensar no meu pai. Olhando jornais, assistindo programas policiais sangrentos a procura de notícias de Samara. Eu fazia parte de um desses telejornais, mas não queria ser estagiária desse aspecto da vida. Queria ser de tantos outros...
O repórter falava baixinho, como Joao Gilberto
cantando. E ameaçava jogar o microfone na minha cabeça se eu não prestasse atenção. Mas naquele dia, tudo o que eu menos conseguia era prestar atenção. Minha mente viajava e voltava, do meu pai a mim. Pensava naquele homem magro, mas forte. Daquele tão íntegro, tão lutador e o melhor e pior de tudo: tão esperançoso.
Meu olho já não conseguia mais guardar aquele aguacéu. Tenente Nunes disse que eu não servia para o serviço. Deu vontade de dizer que cada um sabe a dor e a alegria que traz no coração, mas ia parecer piegas e eu deixei essa linda frase para escrever agora.



Não conheço alguém que aos 18 veja cadáveres e pense na irmã, que poderia estar lá. Não é uma cena bonita de se ver, nem é uma coisa boa de sentir. Chorei, e se eu usasse um chop para me distrair, esse seria um bom momento.
Bem, naquela hora decidi que se é para passar informação para o telespectador, que seja numa sala com ar condicionado, junto de um computador, um telefone e um cafezinho. Muita euforia e gritaria, mas nenhum cadáver a sua frente.
Minha irmã, que determinou tantos aspectos da minha vida hoje estaria fazendo 30 anos. E foi através dos jornalistas que eu descobri que ela só chegara aos 28.
Hoje, sinto-me triste de ainda dar essas notícias. Sinto-me triste em ser a portadora do que essa pedra no meio do caminho tem causado. Sinto-me triste em hoje não poder dar os parabéns a minha irmã. Ele não teve mais um ano de vida.

Caixa


Guardei meu sofrimento numa caixinha.
Não numa caixinha qualquer.
Guardei no pacotinho que escrevi dor.
Ficaram lá aqueles dias em que jogávamos Super Mario e eu sempre tinha direito a duas vidas.
E com carinho armazenei as sextas que íamos com painho a locadora escolher desenhos...
Cada minuto das briguinhas de criança também foram deixadas lá.
E o dia que comemos um queijo do reino inteiro?Separei.
Brincar de boneca com a caixa de papelão, cozinhar flores e ler livros de banca de revista. Tudo isso tá lá, debaixo da tampinha.
Outras coisas que não merecem ser ditas também ficaram ao fundo, infelizmente.
Preciso de outra caixa para selá-las, mas ainda não consegui espaço para as pedras, Elas pesam e machucam.

Fazem dois anos hoje que eu fechei essa caixa.
Mas nesses dois dias de alguma forma ela se abre.
Eu tento fechá-la, mas cada lágrima derramada tem a força de uma maré.
Então eu desisto e me deixo levar.
Para 2013 prometo mudar o nome dessa caixinha.
Vou conseguir chamá-la de saudade.


A história de nós dois



A história de nós dois
Num sábado como qualquer outro eles se olharam. A respiração dos dois não estava combinada, nem os movimentos tinham sincronia, mas eram perfeitos por que não deixavam de ser pura inspiração.
Ela era uma contadora de histórias, dura, mas tão ingênua ao mesmo tempo. Ele tinha o dom da felicidade, do sucesso, de saber fazê-la ser a melhor, ate na hora de encher uma garrafa d’água.
Ela quase nunca sabia lidar com as coisas de um amor. Não entendia se estava agindo certo, errado, com coração ou com razão. Em momentos inoportunos suas emoções eram despejadas com lágrimas que só o travesseiro conhecia. Nas noites de insônia ela jogava suas letras todas agrupadas em coisas que só faziam sentido para a sua alma feliz, mas medrosa. Ele tinha certo brilho nos olhos, uma convicção avassaladora e uma autoridade até sobre aquilo que ele não entendia.
Os dois tinham implicâncias bobas, como se procurassem algo para fazer que não apenas serem extremamente felizes e apaixonados. Ela odiava a barba por fazer, ele admirava a profissão dela e ao mesmo tempo fazia criticas das mais variadas. No fundo, no fundo era puro divertimento.
Dono de técnicas incríveis de como servir, amar e ainda ser dependente faziam dele o charme em pessoa. Ela, cheia de inquietações, se perguntava constantemente em como estar a altura de merecer tudo aquilo? Mal sabia ela, que ele a achava numa altura compatível, e que aquele charme não passava simplesmente de ser quem se é, da maneira mais natural possível.
Numa manha, ele a abraçou. Foi daqueles abraços que dava costumeiramente nas primeiras horas da manha. Aquilo fazia parte dele, e era mais uma de suas irresistíveis maneiras de realizar sonhos. Mas ele nem sabia. Ele não percebia como o coração se enchia de alegria, e os olhos marejavam.
“Ela percebia todos os dias e a cada dia o quanto tinha que agradecer.

domingo, 31 de julho de 2011

Diálogo de tempo

Esse tem tirado de perto o que há de precioso.

Então, me escute:

- Que arbitrariedade a sua de querer definir a duração de cada circunstância !

- Sim, eu cansei de brigar com o que me importa, agora posso partir direto a você, cheio de épocas e definições de durabilidade.

- Isso só acontece por que você quer transformar tudo em um instante, em quando eu queria que fossem pelo menos dois!
- Mas nem sempre precisa existir movimento. Que demora a passar essa série interrompida de ocasiões...vire o jogo!Transforme o amor numa constância.

- Te explico: o estado de cada coisa em mim e com ele poderia demorar mais do que um simples deguste de compasso!

- Me diz então, como fazer para mante-lo perto não só em ocasião oportuna?

- Tempo, não aguento mais te perder, enquanto me entrerto tentando te segurar.

- Não, eu não tenho como fixar hora para a precipitação. Porque eu não posso por minha conta mudar o ângulo do horário?

- Desse jeito o temporal vira tormenta...eu cansei dessa desigualdade periódica.

domingo, 12 de junho de 2011

De cada distância


De cada visita a tentativa de ser permanente.

De partida, a tentativa de ser inteira.

Cada minuto, a tentativa de ser hora.


De cada voz, a tentativa de ser abraço.

De briga, a tentativa de ser pazes.

Cada refeição, a tentativa de ser velas.


Em cada ação, um grito de conjuga-me!

Em palavra, o cuidado do fugaz.

Cada afronta, um elogio.


Em cada toque, um beijo.

Em caber, uma sorte.

Cada distância, um princípio.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Refeição

Para que saborear tuas falácias ? Se não existe nada nesses argumentos tolos para eu me deliciar?
Não há razão de degustá-las se não encontro vontade de também tê-las em minha boca!
Tuas palavras não tem cheiro, não tem canto, não tem tempero, não me encantam.

E se tu, ainda não percebeste , teus sons em letras não evoluem para nenhuma espécie de beleza! Então te cala! Eu não preciso desse alimento. Eu não quero me saciar com tuas cruzadas compartilhadas e de falso rebusque. Minhas simples mensagens me bastam.

São elas que me dão fome, a elas eu não rejeito.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Tão e logo me desespera

Não sei como foi, que ela surgiu em meu peito...se assim por acaso sem nenhum respeito
Não sei como foi que ela apareceu,sem nenhum aviso e desse jeito tudo o que ela claro meio que assim escureceu

E eu como qualquer um que sofre um aperto, fiquei assim toda sem jeito
Derramando lágrimas sem nenhum encanto,sem saber como pintar de volta minha tela de branco

E mesmo sem saber, como ela assim surgiu, sei bem de prontidao que meu amor foi quem partiu e meu deu tchau lá da janela acenando triste sem saber que agora eu, era ela a SAUDADE que sempre, tão e logo me desespera.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Saudade de Cores

Bom, eu descobri que a saudade é feita de cores.

Ela começa com um azul sereno, como o céu em dia festivo cheio de bem querer.

Depois ela pede para passar como um alaranjado que nem o por do sol
com os amigos.

Aí ela vai encontrando a ironia que está em mim e me enche de um
vermelho, como o dia em que cortei a perna correndo na bicicleta nova.

Num instante ela corre, fica turva, fica densa, e muda de cor:aquele
vermelho como o vinho, que já transformou situações antes.

E fugindo a tudo o que ela é, ela se torna num azul escuro, como a
tinta da caneta que colore meu papel de letras.

E, como se não bastasse tanta entrega, naquele mar de um azul celeste,
ela perde as estrelas, perde o brilho, perde a luz.

E agora, nesse pingo, e sem um pingo do que ela já foi, minha saudade
está tão escura, que se você não chegar depressa não saberei mais de
que cor ela pode ficar.

E se pode.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Vezes

Às vezes ele fala umas coisas que eu nunca pensei, e outras, coisas que só eu pensaria.
Às vezes ele é totalmente previsível, e outras nada do que eu poderia saber.
Às vezes eu poderia até sentir o que ele diz, mas nunca poderia escrever o que ele sente.
Às vezes eu perco o foco, e muitas vezes é só uma questão de ajuste.
Às vezes ele não faz por que precisa, e sim por que prefere.
Às vezes eu não sei para onde ir, e ele está abrindo a porta.
Às vezes eu me pergunto qual é o meu lugar, e muitas vezes eu já estou nele.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Voz

Nada contra as letras – o que é bem óbvio - mas hoje prefiro a voz. Em qualquer tom. Queria ouvir como fosse, e saber por que da nossa estar tão afastada uma da outra.
Eu tenho algo a dizer, mas, por mais estranho que pareça me faltam letras e me sobra voz.

E não sei dar aquele suspiro tão particular com caracteres.
E não sei esperar que ela vá em ondas dizer o que eu nem digo.
E com letras não posso bebê-la num beijo...Nem cheirá-la num suspiro.

Hoje queria a voz.Por mais rude que ela fosse.
Hoje queria sentir o tom, ouvir o obvio, sair das linhas.
Hoje queria a confiança do timbre, a gravidade do que ninguém vê.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Vem

Vem aqui, que hoje eu quero te dizer.
E não é por letra, nem por verso, é por alma.
Vem aqui, que hoje eu quero expressar.
E nem é por beijo, nem por toque. É por coração.

Vem, escuta aqui, que nessa hora tem melodia.
E não é melodia pronta, é melodia única.
Escuta aqui, que da minha boca só o verdadeiro,
E de mim só afagos.

Vem, presta atenção quando te falo de caminhos
Das trilhas, dos ladrilhos, das opções.
Vem, entende o grito, a brincadeira, o sorriso
Entende o gesto, preenche o vazio.

Vem, e me fala.
Me fala sobre aquele desvio que podia te tirar do meu caminho.
Vem e me fala da felicidade de não ter sido.
Vem.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cyntia

Somos diferentes.

Você é de uma cor só, onde o que parece ser quase impossível se torna simples como coisas que não precisamos entender.
Eu sou de cores e flores, com essa coisa menos-hippie. Eu te pergunto todas as impossibilidades e acabo espalhando minhas escolhas e fingindo que você aceitou.

Você tem a praticidade no sangue, eu caminho em cima de sonhos!

Você não recua e eu tiro meu pé da água gelada!

Você não se arrepende, e se não consegue alcançar o jambo no galho mais alto, você atira uma pedra. Eu sinto o cheiro da flor mais próxima e fico com fome!


Somos iguais.

Quando há desânimo, tanta coragem aumenta.

E se tivermos uma levíssima sensação de não mais andarmos juntas, logo criamos peso e matéria e aparecemos sem dar explicação.

Cultivamos nossos delitos, desejando não repeti-los, e ao mesmo tempo, espalhando nossas naturalidades!

Ensaiamos nossos espetáculos, e muitas vezes não saímos das coxias.

Bebemos nossos livros, degustamos nossos filmes, lemos nossos drinks e assistimos nossas vidas!


Somos iguais, e diferentes. E por isso, é hábito pedirmos opinião, mesmo que a gente nunca concorde! Mas que alívio quando desligamos o telefone... Aquele conto parece mais fácil, aquele caminho sem pedras, aquela desordem com sentido! Mesmo que tenhamos (e é quase sempre assim) encontrar nossas próprias letras, nossas próprias falas.

'Lembranças não deixam morrer.'

segunda-feira, 23 de março de 2009

Vou ter que aprender

Ainda não entendo folhas em branco.
Nem o som mudo do teclado.
Me dói não encontrar as palavras certas para as emoções erradas.
A boca fechada quando a cabeça diz tanto.

Tentei decifrar olhares, mas alguns me soam vazios.
Então mudei os passos, os toques, os sorrisos.
Falei sem dizer, cantei só melodia.

Mas nada de céu azul, só encontrei nuvens.
Minhas palavras desenham como os raios de sol nos meus dias.
Claros, precisos e únicos para mim.

Mas, nem sempre é verão, nem sempre é canção e nem sempre é texto.

Vou ter que aprender.