Não conseguia parar de pensar no meu pai. Olhando jornais, assistindo programas policiais sangrentos a procura de notícias de Samara. Eu fazia parte de um desses telejornais, mas não queria ser estagiária desse aspecto da vida. Queria ser de tantos outros...
O repórter falava baixinho, como Joao Gilberto cantando. E ameaçava jogar o microfone na minha cabeça se eu não prestasse atenção. Mas naquele dia, tudo o que eu menos conseguia era prestar atenção. Minha mente viajava e voltava, do meu pai a mim. Pensava naquele homem magro, mas forte. Daquele tão íntegro, tão lutador e o melhor e pior de tudo: tão esperançoso.
Meu olho já não conseguia mais guardar aquele aguacéu. Tenente Nunes disse que eu não servia para o serviço. Deu vontade de dizer que cada um sabe a dor e a alegria que traz no coração, mas ia parecer piegas e eu deixei essa linda frase para escrever agora.
Não conheço alguém que aos 18 veja cadáveres e pense na irmã, que poderia estar lá. Não é uma cena bonita de se ver, nem é uma coisa boa de sentir. Chorei, e se eu usasse um chop para me distrair, esse seria um bom momento.
Bem, naquela hora decidi que se é para passar informação para o telespectador, que seja numa sala com ar condicionado, junto de um computador, um telefone e um cafezinho. Muita euforia e gritaria, mas nenhum cadáver a sua frente.
Minha irmã, que determinou tantos aspectos da minha vida hoje estaria fazendo 30 anos. E foi através dos jornalistas que eu descobri que ela só chegara aos 28.
Hoje, sinto-me triste de ainda dar essas notícias. Sinto-me triste em ser a portadora do que essa pedra no meio do caminho tem causado. Sinto-me triste em hoje não poder dar os parabéns a minha irmã. Ele não teve mais um ano de vida.